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25 de abr. de 2021

Primeiro Pássaro



Primeiro Pássaro

Chega e canta.
Canta e escuta:
Para e escuta:
com os ouvidos, com os olhos, com as penas.

O silencio da manhã é um longo muro, ainda,
entre este mundo e o céu.

Escuta e canta.
Canta e para.
Para e parte.

Devia ser a primavera.
Mas não houve resposta.

Na solidão se perde o inquieto canto prematuro.
Perde-se no silencio o antecipado pássaro.
talvez triste.  


Cecília Meireles
In: Poemas Italianos


Agradeço sua visita. 
Volte sempre e comente!



16 de jun. de 2014

FLORISTA




Deixai passar pela margem da tarde
a velha florista
que levanta nos braços o fim das flores:
- imenso chapéu de ramos amontoados.

Vede os tristes cravos desfeitos,
e o lábio oscilante da ultima pétala de rosa.
Os lírios quase líquidos,
moles e túmidos,
prolongam densas lagrimas.

Deixai passar com o fim das flores,
com o fim da vida,
a velha florista,
de saia verde, de xale roxo, de meias grossas,
toda coberta de flores murchas,
de espesso pólen, de mortos espinhos
- canteiro deslizante,
a velha florista,
a escorregar para o ocaso,
lenta e sozinha,
sob os alamos amarelos,
ao longo de muros tão antigos,
como depois de uma grande festa,
de um culto de outrora.



Cecília Meireles
In: Poemas Italianos 


DISCURSO AO IGNOTO ROMANO



Não está no mármore o teu nome.
Nem teu perfil nem tua face
nada revelam do que foste.
Sabemos só que padeceste,
como acontece a qualquer homem;
que foste vivo e contemplaste
o que faz entre a alma e o horizonte,
e, com as grandes estrelas, viste
os vácuos do céu, na alta noite.
Cresceste como o bicho e a planta:
- mas sabendo que há amor e morte.
Houve um pensamento pousado
entre as rugas da tua fronte
e, dos teus olhos aos teus lábios,
vê-se da lagrima o recorte.

Por que foi talhado o teu rosto
nessa pedra pálida e suave,
ninguém se lembra. E as mãos que andaram
nessa escultura, ninguém sabe.
Poderoso foste? Do mundo 
que desejaste? Que alcançaste?
Na raiz das tuas pupilas,
que sonho existiu, na verdade?
Como pensavas que era a vida?
E de ti mesmo que pensaste?
Diante desta bela cabeça,
vendo-a de perfil e de face,
entre os teus olhos e os do artista,
qual terá sido a tua frase?

IGNOTO ROMANO esculpido
por ignota mão, preservando
no silencio da pedra o antigo
rosto, que encobre a ignota sorte,
parado entre sonho e suspiro,
sem gesto, sem corpo, sem roupas,
sem profissão nem compromisso,
sem dizer a ninguém mais nada
nem do amigo nem do inimigo. . .

(E todos os homens – ignotos –
com os olhos nesse claro abismo,
sem saberem que estão parados
ante um puro espelho polido!
Ignoto Romano – soletram. . .
E continuam seu caminho,
certos de terem algum nome,
com pena do desconhecido...)

Abril, 1953


Cecília Meireles
In: Poemas Italianos 


12 de nov. de 2012

"Ritmo de Nápoles"



 

Atravesso este momento,
transfigurada de outrora.
por muros brancos de estatuas.

Em sonho vou respondendo
ao que dizem noutra língua.
E a lua nasce entre os álamos.

Que haja amor ou desespero,
tudo é como a frágil tinta
desta tarde nestas águas.

Sei que cantam, sei que passam,
que os barcos tem remos verdes
e aquele é o golfo de Nápoles.

Sei que em minha alma há silencio,
que envolvo em silencio o mundo
e há primavera nas arvores.
  

Cecília Meireles
In: Poemas Italianos

25 de out. de 2012

''Ceres abandonada''









As arvores, secas,
descuidadas plantas.
E a deusa esquecida,
sem mais esperanças,
entre pedras fuscas
e galinhas brancas.

Ruivo pó do tempo
na remota fronte.
Veio de outras eras,
trazida de longe:     
- na sombra a deixaram.
Partiram para onde?

O elmo é de Minerva:
- mas, com o Sol no peito,
chamam-na de Ceres.
E seu lábio meigo
sorri sobre o nome,
falso ou verdadeiro.

Cheia de silencio,
contempla e medita.
E há campos e festas
e feixes de espiga
na pequena cova
de sua pupila.

Seus velhos poderes
ninguém mais recorda.
O modesto plinto
mão nenhuma adorna.
Para os homens vivos,
é uma deusa morta.

Mas o grão dourado
e a olorosa terra
e o boi que desliza
e o sol que se eleva
e o céu sobre humano
não se esquecem dela.

Fazem-se e refazem-se
os volúveis dias. 
No mármore, imóvel,
sempre a deusa é viva,
muito além dos homens
e de suas cinzas.

Cecília Meireles
In: Poemas Italianos

 (Painting Ceres,by Jean Antoine Watteau)



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