29 de mai de 2009

Aparecimento



Divide-se a noite, para que me apareças
e prolongues tua presença entre sonhos cortados.

Vejo o céu que ao longe caminha.
As montanhas respiram a luz das estrelas,
e, na ausência dos homens,

o caule do tempo sobe com felicidade.
Sobre a noite que resvala,
conservo-te imóvel entre meus olhos e a vida.
Penso todos os pensamentos,
e nenhum me auxilia.
E escuto sem querer as lágrimas
que germinam sozinhas,
e seguem sozinhas um subterrâneo curso.

Ah, meu sorriso morreu por tristezas antigas.
Como te hei de receber em dia tão posterior?


Cecília Meireles
in: Mar Absoluto

O Transeunte



Venho de caminhar por estas ruas.
Tristeza e mágoa. Mágoa e tristeza.
Tenho vergonha dos meus sonhos de beleza.

Caminham sombras duas a duas,
Felizes só de serem infelizes,
E sem dizerem, boca minha, o que tu dizes...

De não saberem, simples e nuas,
coisas da alma e do pensamento,
E que tudo foi pó e que tudo é do vento...

Felizes com misérias suas,
como eu não poderia ser com a glória,
porque tenho intuições, porque tenho memória...

Porque abraçada nos braços meus,
porque obediente à minha solidão,
vivo construindo apenas Deus...

Cecília Meireles
in: Mar Absoluto

Sobriedade


(Ulysses deriding Polyphemus - Homer's Odyssey by John Turner)


Perguntas seculares se levantavam do meu coração:
última planta dos desertos, voz do Enigma...
Ai de mim!

Falei às ondas abundantes: "Dai-me o caminho
embora cercado de pasmo e sombra
por onde foi... - já não por onde veio! - Ulisses!"
Ai de mim!

Pois subiu dentre as águas um vento exíguo,
menos que uma bandeira, que um pássaro, que um lenço...
Passou pelas minhas mãos...Deixou-as... e eu sorri com delícia...
Ai de mim!

Que coisa tênue, a minha vida, que conversa apenas com o mar,
e se contenta com um sopro sem promessa,
que voa sem querer das ondas para as nuvens!


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

Mulher ao Espelho


(A Lady at her Mirror, 1720, by Jean Raoux)

Hoje, que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
Já fui Margarida e Beatriz,
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira,
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus,
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.


Cecília Meireles
em Mar Absoluto

CANTAR SAUDOSO



Tangedoras de idades antigas,
pelo tempo andadas,
todo o campo é nado das vossas cantigas.

Das vossas cantigas, todo o mar é nado,
tangedoras idas!
Pura eternidade foi vosso recado.
Vozes deixastes derramadas
em terras pelo tempo andadas,
e ainda são floridas!

Deixastes lágrimas vertidas
nas águas, tangedoras idas!
E ainda são salgadas...!


Cecília Meireles
in Mar Absoluto

Noite no Rio



Barqueiro do Douro,
tão largo é teu rio,
tão velho é teu barco,
tão velho e sombrio
teu grave cantar!

Barqueiro do Douro,
a noite vai alta,
– por onde perdeste
o braço que falta,
barqueiro do Douro,
que tem de remar!

Barqueiro do Douro,
já não alumia
tão baça candeia,
nesta névoa fria...
A água entra nas tábuas
e escorre a chorar...

Barqueiro do Douro,
aonde chegaremos ?
Já não enxergamos
estrela nem remos,
nem margens, nem sombra
de nenhum lugar...

(Seu remo batia,
sua voz cantava.
Não me respondia.
Remava, remava.

A água parecia
mais negra que a noite,
mais longa que o mar!)

Cecília Meireles
in: Mar Absoluto

28 de mai de 2009

O que amamos está sempre longe de nós



O que amamos está sempre longe de nós:
E longe mesmo do que amamos—que não sabe
De onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
Entendido com medo e inquietude, talvez.
Só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
Os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz.

Não necessita nada o que em ti tudo ordena:
Cuja tristeza unicamente pode ser
E equívoco do tempo, os jogos da cegueira

Com setas negras na escuridão.



Cecília Meireles
in: Solombra

26 de mai de 2009

4º Motivo da rosa



Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto

Desenho



Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas...
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto

Inibição


(Paint by Trish Biddle)

Vou cantar uma cantiga,
Vou cantar – e me detenho:
Porque sempre alguma coisa
Minha voz está prendendo.

Pergunto à secreta Música
Por que falha o meu desejo,
Por que a voz é proibida
Ao gosto do meu intento.

E em perguntar me resigno,
Me submeto e me convenço.
Será tardia, a cantiga?
Ou ainda não será tempo...


Cecília Meireles
in Mar absoluto

Noturno



Estrela fria
da tua mão.
Tênue, cristal,
exígua flor.

Ai! Neva amor.

Lua deserta
Do teu olhar.
Puro, glacial
Fogo sem cor!

Ai! Neva amor.

Imenso inverno
de coração.
Gelo sem fim
a deslizar...

Pus-me a cantar
na solidão:

Teu frio vem,
do céu de mim,
de ti, de quem?
não há mais sol,
verão, calor?

Ai ! Neva amor.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto

25 de mai de 2009

Caminho pelo acaso dos meus muros


Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,

olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe;
medusas da alta noite e espumas breves.

Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,

vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.

Êxtase longo de ilusão nenhuma.


Cecília Meireles
In: Solombra

Para pensar em ti todas as horas fogem


Para pensar em ti todas as horas fogem;
o tempo humano expira em lágrimas e cegueira.
Tudo são praias onde o mar afoga o amor.

Quero a insônia, a vigília, uma clarividência
deste instante que habito - ai, meu domínio triste!,
ilha onde eu mesma nada sei fazer por mim.

Vejo a flor, vejo no ar a mensagem das nuvens,
- e na minha memória és imortalidade -
vejo as datas, escuto o próprio coração,

E depois o silêncio. E teus olhos abertos
nos meus fechados. E esta ausência em minha boca:
pois bem sei que falar é o mesmo que morrer.

Da vida à Vida, suspensas fugas.


Cecilia Meireles
in Solombra

Quero uma solidão, quero um silêncio


Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes, de tudo que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços,

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra, apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitada.

Falar contigo pelo deserto.


Cecilia Meireles
In Solombra

Há mil rostos na terra: e agora não consigo


Há mil rostos na terra: e agora não consigo
recordar um sequer. Onde estás? inventei-te?
Só vejo o que não vejo e que não sei se existe.

Esperamos assim.Por esperança, a espera
vai-se tornando sonho afável; mas descubro
no olhar que te procura uma névoa de orvalho.

Qualquer palavra que te diga é sem sentido.
Eu estou sonhando, eu nada escuto, eu nada alcanço.
Quem me vê não me vê, que estou fora do mundo.

Lá, constante presença em memória guardada
percebo a tua essência - e não sei nem teu nome.
E à tentação de tantas máscaras felizes

se opõe meu leal, nítido sangue.


Cecilia Meireles
in: Solombra

Pelas ondas do mar, pelas ervas e as pedras


Pelas ondas do mar, pelas ervas e as pedras,
pelas salas sem luz, por varandas e escadas
nossos passos estão desaparecidos.

Diálogos foram frágeis nuvens transitórias.
Multidões correm como rios entre areias
inexoráveis, esvaindo-se em distância.

Meus olhos vagos, que já viram tanta morte,
firmam-se aqui: voragens, quedas e mudanças
tornam-me em lágrima. Oh derrotas! oh naufrágios...

A solidão tem duras leis: conhece aquela
insuficiência de comandos e poderes.
Sabe da angústia de limites e fronteiras.

Entre mãos tristes, vê-se a harpa imóvel.


Cecilia Meireles
in Solombra

VENS SOBRE NOITE SEMPRE


Vens sobre noite sempre. E onde vives? Que flama
pousa enigmas de olhar como, entre céus antigos,
um outro Sol descendo horizontes marinhos?

Jamais se pode ver teu rosto, separado
de tudo: mundo estranho a estas destas humanas,
onde as palavras são conchas secas, bradando

a vida, a vida, a vida! e sendo apenas cinza.
E sendo apenas longe. E sendo apenas essa
memória indefinida e inconsolável. Pousa

teu nome aqui, na fina pedra do silêncio,
no ar que freqüento, de caminhos extasiados,
na água que leva cada encontro para a ausência

com amorosa melancolia.


Cecilia Meireles
In: Solombra -1963-

22 de mai de 2009

Leveza


Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.


Cecília Meireles
In Mar Absoluto

Contemplação


Não acuso. Nem perdôo.
Nada sei. De nada.
Contemplo.

Quando os homens apareceram
eu não estava presente.
Eu não estava presente,
quando a terra se desprendeu do sol.
Eu não estava presente,
quando o sol apareceu no céu.
E antes de haver o céu,
EU NÃO ESTAVA PRESENTE.

Como hei de acusar ou perdoar?
Nada sei.
Contemplo.

Parece que às vezes me falam.
Mas também não tenho certeza.
Quem me deseja ouvir, nestas paragens
onde somos todos estrangeiros?
Também não sei com segurança, muitas vezes,
da oferta que vai comigo, e em que resulta,
pois o mundo é mágico!
Tocou-se o Lírio e apareceu um Cavalo Selvagem.
E um anel no dedo pode fazer desabar da lua um temporal.

Já vês que me enterneço e me assusto,
entre as secretas maravilhas.
E não posso medir todos os ângulos do meu gesto.

Noites e noites, estudei devotamente
nossos mitos, e sua geometria.

Por mais que me procure, antes de tudo ser feito,
eu era amor. Só isso encontro.
Caminho, navego, vôo,
- sempre amor.
Rio desviado, seta exilada, onda soprada ao contrário,
- mas sempre o mesmo resultado: direção e êxtase.
À beira dos teus olhos,
por acaso detendo-me,
que acontecimentos serão produzidos
em mim e em ti?

Não há resposta.
Sabem-se os nascimentos
quando já foram sofridos.

Tão pouco somos, - e tanto causamos,
com tão longos ecos!
Nossas viagens têm cargas ocultas, de desconhecidos vínculos.

Entre o desejo do itinerário, uma lei que nos leva
age invisível e abriga
mais que o itinerário e o desejo.

Que te direi, se me interrogas?
As nuvens falam?
Não. As nuvens tocam-se, passam, desmancham-se.
Às vezes, pensa-se que demoram, parece que estão paradas...
Confundiram-se.

E até se julga que dentro delas andam estrelas e planetas.
Oh, aparência...Pode talvez andar um tonto pássaro perdido.
Voz sem pouso, no tempo surdo.

Não acuso nem perdôo.
Que faremos, errantes entre as invenções dos deuses?

Eu não estava presente, quando formaram
a voz tão frágil dos pássaros.

Quando as nuvens começaram a existir,
qual de nós estava presente?


Cecília Meireles
In: Mar Absoluto

Transformações


Sobre o leito frio,
sou folha tombada
num sereno rio.
Folha sou de um galho
onde uma cigarra,
nutrida de orvalho,
rasgou sua vida
em música – ao vento –
desaparecida...

Sobre o leito frio,
sou folha e pertenço
a um profundo rio.
(Pela noite afora,
vão virando sonho
músicas de outrora...)


Cecília Meireles
In: Mar absoluto -1945-

20 de mai de 2009

Mar absoluto


Foi desde sempre o mar,
E multidões passadas me empurravam
como o barco esquecido.

Agora recordo que falavam
da revolta dos ventos,
de linhos, de cordas, de ferros,
de sereias dadas à costa.

E o rosto de meus avós estava caído
pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,
e pelos mares do Norte, duros de gelo.

Então, é comigo que falam,
sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,
tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.

E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes redes de rezas,
campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais
com peixes mensageiros
e cantos náuticos.

E fico tonta.
acordada de repente nas praias tumultuosas.
E apressam-me, e não me deixam sequer mirar a rosa-dos-ventos.
"Para adiante! Pelo mar largo!
Livrando o corpo da lição da areia!
Ao mar! - Disciplina humana para a empresa da vida!"

Meu sangue entende-se com essas vozes poderosas.
A solidez da terra, monótona,
parece-mos fraca ilusão.
Queremos a ilusão grande do mar,
multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,
uma solidão para todos os lados,
uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do mundo,
e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

O alento heróico do mar tem seu pólo secreto,
que os homens sentem, seduzidos e medrosos.

O mar é só mar, desprovido de apegos,
matando-se e recuperando-se,
correndo como um touro azul por sua própria sombra,
e arremetendo com bravura contra ninguém,
e sendo depois a pura sombra de si mesmo,
por si mesmo vencido. É o seu grande exercício.

Não precisa do destino fixo da terra,
ele que, ao mesmo tempo,
é o dançarino e a sua dança.

Tem um reino de metamorfose, para experiência:
seu corpo é o seu próprio jogo,
e sua eternidade lúdica
não apenas gratuita: mas perfeita.

Baralha seus altos contrastes:
cavalo, épico, anêmona suave,
entrega-se todos, despreza ritmo
jardins, estrelas, caudas, antenas, olhos, mas é desfolhado, cego, nu, dono apenas de si,
da sua terminante grandeza despojada.

Não se esquece que é água, ao desdobrar suas visões:
água de todas as possibilidades,
mas sem fraqueza nenhuma.

E assim como água fala-me.
Atira-me búzios, como lembranças de sua voz,
e estrelas eriçadas, como convite ao meu destino.
Não me chama para que siga por cima dele,
nem por dentro de si:
mas para que me converta nele mesmo. É o seu máximo dom.

Não me quer arrastar como meus tios outrora,
nem lentamente conduzida.
como meus avós, de serenos olhos certeiros.

Aceita-me apenas convertida em sua natureza:
plástica, fluida, disponível,
igual a ele, em constante solilóquio,
sem exigências de princípio e fim,
desprendida de terra e céu.

E eu, que viera cautelosa,
por procurar gente passada,
suspeito que me enganei,
que há outras ordens, que não foram ouvidas;
que uma outra boca falava: não somente a de antigos mortos,
e o mar a que me mandam não é apenas este mar.

Não é apenas este mar que reboa nas minhas vidraças,
mas outro, que se parece com ele
como se parecem os vultos dos sonhos dormidos.
E entre água e estrela estudo a solidão.

E recordo minha herança de cordas e âncoras,
e encontro tudo sobre-humano.

E este mar visível levanta para mim
uma face espantosa.

E retrai-se, ao dizer-me o que preciso.
E é logo uma pequena concha fervilhante,
nódoa líquida e instável,
célula azul sumindo-se
no reino de um outro mar:
ah! do Mar Absoluto.


Cecília Meirels
in Mar Absoluto -1945-

19 de mai de 2009

CARONTE

(Joachim Patinir)

Caronte, juntos agora remaremos:
eu com a música, tu com os remos.

Meus pais, meus avós, meus irmãos,
já também vieram, pelas tuas mãos.

Mas eu sempre fui a mais marinheira:
trata-me como tua companheira.

Fala-me das coisas que estão por aqui,
das águas, das névoas, dos peixes, de ti.

Que mundo tão suave! que barca tão calma!
Meu corpo não viste: sou alma.

Doce é deixar-se, e ternura o fim
do que se amava. Quem soube de mim?

Dize: a voz dos homens fala-nos ainda?
Não, que antes do meio sua voz é finda.

Rema com doçura, rema devagar:
não estremeças este plácido lugar.

Pago-te em sonho, pago-te em cantiga,
pago-te em estrela, em amor de amiga.

Dize, a voz dos deuses onde principia,
neste mundo vosso, de perene dia?

Caronte, narra mais tarde, a quem vier,
como a sombra trouxeste aqui de uma mulher

tão só, que te fez teu amigo;
tão doce - ADEUS! - que canta até contigo!


Cecília Meireles
In “Mar Absoluto -1945-

LAMENTO DA MÃE ÓRFÃ


Foge por dentro da noite
reaprende a ter pés e a caminhar,
descruza os dedos, dilata a narina à brisa dos ciprestes,
corre entre a luz e os mármores,
vem ver-me,
entra invisível nesta casa, e a tua boca
de novo à arquitetura das palavras
habitua,
e teus olhos à dimensão e aos costumes dos vivos!

Vem para perto, nem que já estejas desmanchando
em fermentos do chão, desfigurado e decomposto!
Não te envergonhes do teu cheiro subterrâneo,
dos vermes que não podes sacudir de tuas pálpebras,
da umidade que penteia teus finos, frios cabelos
cariciosos.

Vem como estás, metade gente, metade universo,
com dedos e raízes, ossos e vento, e as tuas veias
a caminho do oceano, inchadas, sentindo a inquietação das marés.

Não venhas para ficar, mas para levar-me, como outrora também te trouxe,
porque hoje és dono do caminho,
és meu guia, meu guarda, meu pai, meu filho, meu amor!

Conduze-me aonde quiseres, ao que conheces, - em teu braço
recebe-me, e caminhemos, forasteiros de mãos dadas,
arrastando pedaços de nossa vida em nossa morte,
aprendendo a linguagem desses lugares, procurando os senhores
e as suas leis,
mirando a paisagem que começa do outro lado de nossos cadáveres,
estudando outra vez nosso princípio, em nosso fim.

Cecília Meireles
In: Mar absoluto -1945-

Surpresa


Trago os cabelos crespos de vento
e o cheiro das rosas nos meus vestidos.
O céu instala no meu pensamento
aos seus altos azuis estremecidos.

Águas borbulhantes, árvores tranqüilas
vão adormentando meus tempos chorados.
E a tarde oferece às minhas pupilas
nuvens de flores por todos os lados.
Ó verdes sombras, claridades verdes,

que esmeraldas sensíveis hei nutrido,
para sobre o meu coração verterdes
mirra de primaveras e de olvidos?
Ó céus, ó terra que de tal maneira

ardente e amarga tenho atravessado,
por que agora pensais com tão fino cuidado
vossa mansa,calada, ferida prisioneira?


Cecília Meireles
In: Mar absoluto -1945-

Interpretação


As palavras aí estão, uma por uma:
porém *minhalma sabe mais.

De muito inverossímil se perfuma
o lábio fatigado de ais.

Falai! que estou distante e distraída,
com meu tédio sem voz.

Falai! meu mundo é feito de outra vida.
Talvez nós não sejamos nós.


Cecília Meireles
in Mar absoluto -1945-
*Conservo a grafia da escritora em 1945.

Romantismo


Seremos ainda românticos
- e entraremos na densa mata,
em busca de flores de prata,
de aéreos, invisíveis cânticos.

Nas pedras, à sombra, sentados,
respiraremos a frescura
dos verdes reinos encantados
das lianas e da fonte pura.

E tão românticos seremos
de tão magoado romantismo,
que as folhas dos galhos supremos
que se desprenderem no abismo

pousarão na nossa memória
- secas borboletas caídas -
e choraremos sua história,
- resumo de todas as vidas.

Cecília Meireles
in: Mar Absoluto-1945-

Transição


O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo a cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para os outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas.
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia... -- não consentidas.
mas recebidas e esperadas!)

Cecília Meireles
In Mar absoluto – 1945-

Terceiro Motivo da Rosa


Se Omar chegasse
esta manhã,
como veria a tua face

Omar Khayyam,
tu, que és de vinho
e de romã,
e, por orvalho e por espinho,
aço de espada e Aldebarã?

Se Omar te visse
esta manhã,
talvez sorvesse com meiguice
teu cheiro de mel e maçã.
Talvez em suas mãos morenas
te tomasse, e dissesse apenas:
"É curta a vida, minha irmã".

Mas por onde anda a sombra antiga
do âmago astrônomo do Irã?

Por isso, deixo esta cantiga
- tempo de mim, asa de abelha -
na tua carne eterna e vã,
rosa vermelha!

Para que vivas, porque és linda,
e contigo respire ainda
Omar Khayyam.


Cecília Meireles
In Mar absoluto – 1945-

Retrato Obscuro


Vêem-se passar seus dois pés,
serenos e certos.
Mas, como as pedras admiradas
e o pó jacente
e as mínimas vidas contritas,
sabe-se que há uma espécie de ninho em redor deles,
que lhes retira o peso, e governa,
governa seu destino e os demais.

Assim é ela.

Entre pássaros e flores,
é preciso procurar aprender suas mãos:
inclinam-se, giram, passam,
pertencem a outros enredos,
têm ofícios longe da terra.

Perguntam-me por ela.
Tão triste, responder!
Ela chega, toca-me, deixa-me.
Eu nem olho para ela.
Doce e amargo é pensá-la,
e estar à sua disposição, tacitamente.
Sou o degrau da escada e o fecho em que pousam seus dedos.
Às vezes, seu baço espelho,
e o campo onde um momento desliza seu véu.

Ela vai sempre na frente.
Sozinha. Com um silêncio de bússola e deusa.
Livre de encontros, paradas, limites,
anda leve como as borboletas
e segura como o sol no céu.
E é diante de suas mãos que se sente
esta miséria taciturna,
a obrigação do horizonte,
o curto espaço entre o nascimento e a morte.

Choro porque ela está por estar – assim perto e entre nós,
e comigo – sem mim.
Sua presença animando e enganando minha forma,
não me deixando ver até onde sou ela,
e desde onde a outra que a acompanha,
sabendo-a e sem a saber.

Vede a cor de seus olhos
como desmaia, desaparece, límpida e liberta,
por firmes ou oscilantes horizontes.
Sei, quando ela fala, que é diferente de todos,
e, mesmo quando se parece comigo, fico sem saber se sou eu.

E quando não diz nada, sofro, perguntando o que a detém,
por lugares que apenas sinto,
e não a posso ajudar a amar nem a sofrer,
porque nem sofre nem ama
e é pura, ausente e próxima.

Quem poderá dizer alguma coisa certa a seu respeito?

Quem poderá dizer alguma coisa certa a seu respeito?
Ela mesma pararia, ouvindo-se descrever,
atônita.
Seu rosto inviolável é como o das estrelas,
quando os homens explicam:
“Aquela é Sírius... Aquela, Antares... Aquela...”

E como as estrelas
a levo e me leva – incomunicável,
suspensa na vida,
sem glória e sem melancolia.

Cecília Meireles
In Mar Absoluto -1945-

Cavalgada



Escuta o galope certeiro dos dias
saltando as roxas barreiras da aurora.

Já passaram azuis e brancos:
cinzentos, negros, dourados passaram.

Nós, entretidos pela terra,
não levantamos quase nunca os olhos.

E eles iam de estrela a estrela,
asas, crinas e caudas agitando.

Todos belos, e alguns sinistros,
com centelhas de sangue pelos cascos.

Se alguém lhes suplicasse:"Parem!"
- não parariam - que invisível látego

ao flanco impôs-lhe ritmo certo.
Se por acaso alguém dissesse: "Voem!

Mais depressa e para mais longe?"
- veria o que é, no céu, a voz humana...

Escuta o galope sem pausa
da cavalgada que vai para oeste.

Não suspires pelo que existe
nesses caminhos do sol e da lua.

Semeia, colhe, perde, canta,
que a cavalgada leva seu destino.

Ferraduras, ígneas virão
procurar onde estás, na hora que é tua.

Entre essas patas de aço e nuvem,
estão presos teus campos e teus mares.

Irás ao céu num selim de ouro,
sem saberes quem pôs teu pé no estribo.

Rodarás entre a poeira e Sírius,
com esses ginetes sem voz e sem sono,

até vir o mais poderoso
que esmague a rosa guardada em teu peito.

Depois, continuarão saltando, mas tão longe
que não perturbarão tuas pálpebras soterradas.

Cecília Meireles
In: Canções -1956-

SE ESTIVE no mundo
ou fora do mundo. . . ?
Mas que lhe respondo,
se o Arcanjo pergunta,
num tempo profundo?

No mundo passava:
porém muito longe.
Por sonhos e amores
me desintegrava.

O mundo não via:
minha permanência
foi, por toda parte,
fantasmagoria.

Dava, mas não tinha.
E, nessa abundância,
nada me ficava:
nem sei se fui minha.

Se estive no mundo
ou fora do mundo?
-Assim me apresento,
se o Arcanjo pergunta
meu nome profundo.



Cecília Meireles
In: Canções -1956-

AQUI SOBRE A NOITE,


Aqui sobre a noite,
na cinza das pálpebras,
no meio das rosas,
no sono das aves,
nas franjas da lua,
nas imóveis águas,

aqui, sobre a tênue
seda da saudade,
a perpétua face.

Sozinha contemplo
o ardente milagre.
Ninguém mais te avista,
Verônica suave!
-Desenho do sonho
que a noite reparte.

Por que me apareces
igual à verdade,
ilusória imagem?

Na minha alegria,
corre um mar de lágrimas.
Tudo se repete,
na terra e nos ares,
e os meus pensamentos
são só teu retrato.

Em puro silêncio,
luminosa jazes:
tão doce e tão grave!

Fita bem meu rosto,
guarda os olhos pálidos
com rios antigos
por onde viajaste.
Lembra-te da minha
sombra humana, diáfana,

-pode ser que um dia
todos nós passemos
pela Eternidade.


Cecília Meireles
In: Canções -1956-

CAVALO BRANCO
de crinas de ouro
buscando o trevo
entre as margaridas,

que é da fortuna
da donzelinha,
solta da sela
em várzeas antigas?

E as velhas fontes
contam histórias,
tristes, risonhas,
de terras perdidas,

e as lavadeiras
detrás dos muros
cantam, muito alto,
chorosas cantigas.

Cavalo branco
de crinas de ouro,
mostra-me o trevo
entre as margaridas!


Cecília Meireles
In: Canções

FORMOU-SE uma rosa
em cima do mar:
nem de âmbar nem de água
nem de coral.
Tão longe do mundo,
quem a vê brilhar?
Pétalas de seda,
espinhos de sal.

Barqueiros, levai-me
para esse lugar,
onde gira a rosa
do temporal.
Rosa do canteiro
de verde cristal
nascida de rios
de muito chorar.

Formou-se uma rosa!
A Estrela Polar
é o seu claro espelho
sobrenatural.
Barqueiros, levai-me,
que todo o meu mal
é de seda e espinho
em batalhas no ar . . .

Barqueiros, levai-me,
que a quero cortar,
prender ao meu peito,
como um sinal
do ardente destino
deste navegar
pelo mundo obscuro
do amor impessoal . . .


Cecília Meireles
In: Canções

HÁ UM NOME que nos estremece,
como quando se corta a flor
e a árvore se torce e padece.

Há um nome que alguém pronuncia
sem qualquer alegria ou dor,
e que em nós, é dor e alegria.

Um nome que brilha e que passa,
que nos corta em puro esplendor,
que nos deixa em cinza e desgraça.

Nele se acaba a nossa vida,
porque é o nome total do amor
em forma obscura e dolorida.

Há um nome levado no vento.
Palavra. Pequeno rumor
entre a eternidade e o momento.


Cecília Meireles
In: Canções

COMO NUM EXÍLIO
como nas guerras,
meu amigo é morto,
sem nenhum conforto,
em longes terras.

Para consolá-lo,
mandei-lhe versos.
Porém, nada acalma
cuidados da alma
no amor dispersos.

Palavras, palavras,
sobre uma vida.
Ai, ninguém socorre!
Meu amigo morre
sem despedida.

Andamos tão longe!
tão separados!
Morto é o meu amigo,
entre um mar antigo
e céus toldados.

Mas tudo é tão belo,
embora triste,
que já não me importa
sua vida morta,
se em mim subsiste.


Cecília Meireles
In: Canções

LONGE, meus amores,
tranqüila, guardei-os.
Às vezes, me ocorre:
serão meus, ou alheios?

(A rosa em seu ramo,
o ouro, nos seus veios:
-quem é dono certo,
dono e sem receios?)

Ah, belos amores,
sem fins e sem meios . . .
Hei de amar-vos menos,
por serdes alheios?

Guardei meus amores.
Perdi-os? Salvei-os?
-Minhas mãos, vazias.
E meus olhos, cheios.

Mais doce é o deserto,
para os meus recreios.
Em tempo de morte,
que importam amores,
nossos ou alheios?


Cecília Meireles
In: Canções

MUITO CAMPOS tênues


MUITO CAMPOS tênues
que se inclinam pálidos:
flores decadentes
por todos os lados.

Grandes nuvens líricas,
ventos e astros lânguidos
a alta noite fria
clareando e sombreando.

Que vitória etérea
de guerreiros límpidos!
Mira a brava guerra
sonhos decorridos.

Desce no tempo íngreme
o planeta rápido.
Todo de ouro, o instinto
imobilizado.

E os nomes nos túmulos
frágil cinza vária. . .
-Quebrados escudos,
abolidas armas.


Cecília Meireles
In: Canções-1956-

INESPERADAMENTE


Inesperadamente
a noite se ilumina:
que há uma outra claridade
para o que se imagina.

Que sobre-humana face
vem dos caules da ausência
abrir na noite o sonho
de sua própria essência?

Que saudade se lembra
e, sem querer, murmura
seus vestígios antigos
de secreta ventura?

Que lábio se descerra
e – a tão terna distância! –
conversa amor e morte
com palavras da infância?

O tempo se dissolve:
nada mais é preciso,
desde que te aproximas,
porta do Paraíso!

Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)


Cecília Meireles
In: Canções

Venturosa de sonhar-te,


Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)

–Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!

Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.

–Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!

Cecília Meireles
in Canções -1956-

Respiro teu nome


Respiro teu nome.
que brisa tão pura
súbito circula
no meu coração.

Respiro teu nome.
repentinamente,
de mim se desprende
a voz da canção.

Respiro teu nome.
Que nome? Procuro...
- Ah teu nome é tudo.
E é tudo ilusão.

Respiro teu nome.
Sorte. Vida. Tempo.
Meu contentamento
é límpido e vão.

Respiro teu nome.
Mas teu nome passa.
Alto é o sonho. Rasa,
minha breve mão.


Cecília Meireles
in Canções -1956-

18 de mai de 2009


Dos campos do relativo
Escapei.
Se perguntam como vivo,
Que direi?

De um salto firme e tremendo,
- Tão de além!-
Chega-se onde estou vivendo
Sem ninguém.

Gostava de estar contigo:
mas fugi.
Hoje, o que sonho, consigo
Já sem ti.

Verei, como quem sempre ama,
Que te vais.
Não se volta, não se chama
Nunca mais.

Os campos do Relativo
Serão teus.
Se perguntam como vivo?
- De adeus.


Cecília Meireles
in Canções -1956-

Os sonhos são flores altas
de umas distantes montanhas
que um dia se alcançarão.

Resta a areia, resta o barro,
pobreza de folha e conchas
em campos de solidão.

A menina da varanda,
com tantas asas nos braços
e borboletas na mão,
viu partirem grandes barcos,
por mares que não são de água
mas sim de recordação.

Os sonhos são flores altas
dentro dos olhos fechadas,
além da imaginação.

A menina da varanda
dormirá sobre os seus ossos.
E os sonhos, flores tão altas,
de seus ossos nascerão.

Cecília Meireles
In Canções -1956-

De longe te hei de amar


De longe te hei de amar,
- da tranqüila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
é parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância ?

E, no fundo do mar,
a estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.


Cecília Meireles
In: Canções -1956-

O rosto em que me encontro
e que a nuvem contempla
vai-se mudando noutro
só pelo que relembra.

De caminhos andados,
se levanta e suspira,
contando sonhos gastos
e palavras perdidas.

Tudo o que parecia,
tudo quanto não era,
tirou-lhe o gosto à vida
e a ternura da terra.

Guardei para o silêncio
os tempos de renúncia:
quando meus sonhos penso,
vejo que sempre é nunca.

E é tão bela a tristeza,
que nem o amor alado
deixará dentro dela
mais que um desenho vago.

(Areia que aparece
dentro de águas que fogem,
sinto que te disperses
pela memória, longe...)


Cecília Meireles
In Canções -1956-

Quando meu rosto contemplo,
o espelho se despedaça:
por ver como passa o tempo
e o meu desgosto não passa.

Amargo campo da vida,
quem te semeou com dureza,
que os que não se matam de ira
morrem de pura tristeza?


Cecília Meireles
In Canções -1956-

Assim moro em meu sonho:
como um peixe no mar.
O que sou é o que vejo
Vejo e sou meu olhar.

Água é meu próprio corpo,
simplesmente mais denso.
E meu corpo é minha alma,
e o que sinto é o que penso.

Assim vou no meu sonho.
Se outra fui, se perdeu.
É o mundo que me envolve?
Ou sou contorno seu?

Não é noite nem dia,
não é morte nem vida:
é viagem noutro mapa,
sem volta nem partida.

O céu da liberdade,
por onde o coração
já nem sofre, sabendo
que bateu sempre em vão.


Cecília Meireles
in Canções -1956-

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...

Cecília Meireles
In Canções -1956-

Ribeira da minha vida
por onde agora andarão
meus barcos de ausência e bruma,
com sua tripulação!

Pergunto se estão de volta,
pergunto se ainda se vão.
Ribeira dos meus cuidados,
minha voz é solidão.

Ribeira da minha vida,
por que sinto o coração
morrer-me nestas areias
de antiga recordação?

Hei de ser o mar e o vento,
e a noite, e a constelação,
- ribeira dos meus cuidados! -
e a própria navegação.

Ribeira da minha vida,
hei de mudar de aflição:
não mais despedida ou espera,
mas naufrágio ou salvação.

Cecília Meireles
in:Canções -1956-

De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!

Ó montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!

De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?

Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
Ó flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!

Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim...


Cecília Meireles
in: Canções -1.956-
Seja bem-vindo. Hoje é